Crítica | Somewhere Good


Selo: World of Echo
Formato: LP
Gênero: Experimental / Post-rock, Ambiente, Jazz

★★★★☆

Existe toda uma geração jovem de música improvisada pautada no rock que me entusiasma ano após ano. Grupos como Still House Plants, Moin, Able Noise e Caroline são alguns exemplos de músicas que inserem novos contextos a sonoridades tradicionais, buscando por meio do improviso ou numa abordagem composicional mais focada em texturas e atmosferas ambientais. Dentro desse cenário, o trio britânico liderado por Tara Clerkin e composto pelos irmãos Sunny Joes Paradiso e Patrick Benjamin pode até parecer convencional de primeira, mas a maneira como as músicas que compõem Somewhere Good desabrocham é algo além do notável.

O trio é natural de Bristol, cidade de certo renome no cenário mundial por ser o berço do trip-hop, de grupos como Massive Attack, Portishead e artistas como Tricky. Enquanto essa genealogia se faz presente na abordagem mais soturna e jazzística que permeia o álbum, a forma quase minimalista que essas músicas são conduzidas — o groove em canções como Lazy Daisy, onde as guitarras e os pianos invadem o espaço quase como pinceladas num canvas — o parentesco parece também ser compartilhado pelos grupos de Chicago da primeira onda pós-rock. Esse ecletismo marca todas as viradas deste trabalho, em que as músicas iniciam como músicas pop convencionais, mas que podem travar num groove ou numa ambientação específica, transformando todo o álbum numa jornada imprevisível.

Por isso, não é surpreendente que logo após Lazy Daisy, o álbum mergulha de vez dentro dessa abordagem ambiental. A seção que vai de “Ups & Downs” até a faixa título é a mais elucidativa disso. É uma sequência de canções que vão de momentos mais livres de estrutura, mais levada ao improviso até o groove mais trancado possível, onde a música anda num padrão (seja num mote fixo ou num groove padrão) e essa construção acaba permitindo uma condução ainda mais viajada.

Somewhere Good é um álbum que persiste nessa tensão entre o convencional e o livre e conduz toda a sua criatividade a partir das explorações e relações sensoriais derivadas do contraponto proporcionado pela junção de diferentes abordagens. Um ode a todas as obras que não se contentam com rótulos simples.

João Pedro Leopoldino

Tudo aquilo que me move é o que me interessa. Natural de Fortaleza/CE, gestor de projetos, música e cinema. Além do Difonia, escrevo ocasionalmente no Substack num blog pessoal chamado "falando em línguas".

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