Crítica | Loveland


Selo: Island Records 
Formato: LP
Gênero: Pop / Indie Pop, Dream Pop


★★★½☆

A transição de uma artista independente para o cardápio comercial de uma grande gravadora costuma levantar suspeitas. No caso de Suki Waterhouse, essa mudança atende pelo nome de "Loveland", o seu terceiro disco de estúdio. Ao assinar com a Island Records e recrutar um batalhão de colaboradores de elite que inclui a onipresença de Aaron Dessner, uma pergunta fica boiando no ar: será que a ilha do queridinho do The National ainda está para peixe quando o assunto é moldar o pop alternativo sem engolir a identidade de quem segura o microfone? Para a nossa surpresa, a cantora não vira refém da produção e usa o orçamento generoso para encorpar a estética de garota blasé que a trouxe até aqui.

Lançado quase dois anos após o ótimo "Memoir of a Sparklemuffin", o registro serve como um diário de transição no qual a cantora também assume a cadeira de produtora executiva. A maternidade recente e a consolidação do relacionamento com Robert Pattinson empurraram a composição para longe dos fetiches perigosos e do desespero juvenil, forçando a artista a investigar o que acontece depois que a paixão cede lugar à estabilidade da rotina. Para traduzir essa nova fase sem sucumbir ao tédio de um suposto final feliz, Suki abriu a carteira do seu novo selo e inflou os créditos da obra. Além de resgatar parceiros de longa data, como a dupla do TTRRUUCES, ela testou as águas com gigantes da composição pop, a exemplo de Amy Allen e Joel Little. Essa expansão desenfreada da equipe criativa funciona como o motor do projeto, preparando o terreno para que a intérprete consiga costurar as suas ansiedades domésticas sobre uma estrutura musical consideravelmente mais ambiciosa.

O instrumental atira para vários lados e acerta em cheio quando mergulha no verniz de rock psicodélico e no pop de bar dos anos oitenta. As produções funcionam incrivelmente bem nos arranjos acústicos com Dessner em "Seasons" e "Almost", chegando a incluir um toque inusitado de Mick Fleetwood assumindo a bateria em "Morals". O problema de envolver tanta gente na mesma sala de gravação é que o disco frequentemente tropeça na própria ambição e acaba soando meio verborrágico, lotado de ideias executadas pela metade. Esse inchaço criativo cria uma parede de som que a cantora utiliza como muleta para afogar a voz em um mar de reverberação, escancarando uma tentativa de mascarar as suas limitações vocais. Algumas canções da segunda metade sofrem com um marasmo tremendo e parecem rascunhos que deveriam ter ficado no descarte, indicando que uma tesourada na seleção de faixas faria maravilhas pela fluidez da audição.

Mesmo com esses tropeços sonoros, os acertos compensam a lentidão e atestam o crescimento da cantora. A melancólica "Teardrops" veste a fantasia da era "Honeymoon" de Lana Del Rey com uma certa segurança, enquanto "Tiny Raisin" aposta em um refrão excêntrico e bem estruturado. A coroa da obra pertence indiscutivelmente a "Happy With It", canção que ganha um balanço contagiante graças às guitarras de Carlos Arévalo, membro da excelente banda Chicano Batman. Trata-se de uma composição sarcástica que disseca com precisão o terror de conseguir o relacionamento que você tanto pediu e descobrir que a felicidade talvez não more mais ali. Fechando o disco com um grau de intimidade, a confessional "Weirdo" consolida o amadurecimento temático de Suki ao trocar o idealismo romântico por uma saudade caseira e mundana de lavar camisas e servir bebidas.

Resumindo a ópera, "Loveland" mostra que Suki Waterhouse não é apenas uma figura pública endinheirada brincando de ter banda nos fins de semana, ela domina a própria estética e entrega uma obra que aproxima a sua posição de estrela de algumas frustrações comuns da rotina a dois. Tem bastante gordura para queimar e algumas escolhas de edição para questionar? Sem dúvida. Porém, o saldo comprova que ela sabe muito bem para onde está guiando o próprio barco criativo.
Gabriela Caligares

Sou a Gabriela, tenho 21 anos e atuo como comunicadora há 2 anos. Quando não estou lendo ou escrevendo, meu maior refúgio sempre é a música. No Difonia, faço parte da curadoria de Rock.

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