
Selo: Atlantic
Formato: LP
Gênero: Pop
★★★★☆
O álbum pode parecer um tanto quanto dissimulado à primeira vista e, de certa forma, ele é. Dissimulado no sentido de que a Charli está em plena consciência do que está realizando — um álbum sério e anti-marketing após o sucesso estrondoso do “BRAT” —, retirando-se da pista de dança, incorporando fotos monocromáticas e sérias e trocando os sintetizadores por guitarras, tudo dentro de uma semiótica perfeita para servir como um rebrand do que é “Charli XCX”. No entanto, essa transformação cínica também revela uma frustração e angústia existencial, sendo esse provavelmente o trunfo do “Music, Fashion, Film”.
Charli, em suas próprias palavras, é uma pessoa autoconsciente. Ela sabe o que significa lançar esse álbum e os efeitos que ele causaria na sua imagem, ela também sabe os efeitos de proclamar que a “pista de dança está morta” em cima de um riff de guitarra minúsculo e seguida por vários versos com 5 camadas de ironia diferentes. Ela tem ciência sobre como o álbum é um “álbum piada”, uma tentativa de provocar seu próprio público e a indústria em geral (de uma maneira bem trollI de internet), e como isso traria atenção a ela.
O que faz o álbum se destacar é que essa tentativa de choque não torna nulo o fato que a Charli está canalizando sentimentos reais. Ela lida com o cinismo aparente em seus vocais desestimulados e padrões repetitivos de guitarra com muita esperteza, fazendo parecer que se compreende a impossibilidade de transmitir uma ideia concreta através da música, que por si só é um meio obtuso de comunicação que envolve muitas interpretações ambíguas e que a arte no geral não supre a nossa necessidade de sermos entendidos. É através dessa autopercepção que ela é capaz de sintetizar que, apesar de inútil, a arte é a única coisa que vale a pena.
Em geral, é compreensível que a recepção do álbum esteja sendo tão polarizante, afinal ele foi feito com esse propósito — e eu compreendo quem não se impressiona com as letras que expressam uma rebeldia e existencialismo superficiais ou quem não compra essa tentativa de ser edgy —, mas analisar o álbum pelo que ele demonstra na superfície é um pouco estranho para mim, quando está embebido de tanta ironia. Charli faz uso dessa superficialidade para demonstrar sua frustração em ser uma artista pop, com a arte no geral e num contexto mais meta, tornando o álbum um comentário muito afiado, mesmo que com seus defeitos.
No final das contas, toda essa conversa conceitual sobre autoconsciência e sarcasmo não sustentaria o álbum se ele não tivesse boas canções — e isso nós temos. Numa estrutura mais diferente, com melodias picotadas e fins abruptos, Charli continua compondo ótimas canções com ganchos irresistíveis e uma produção minimalista de A.G. Cook que se mostrou um ótimo produtor de guitarras.
Aqui temos uma versão mais econômica e desfiada da música que ela fazia antes, como se muitas estivessem incompletas pela incapacidade de completá-las, no entanto ao analisar o álbum como um todo e colocar essas composições junto de uma sonoridade que não apela para pastiches dos anos noventa, recusando a nostalgia e usando símbolos da época apenas situacionalmente e distorcendo-os para criar um álbum meio irreconhecível numa linha temporal de influências. Todas essas falhas e sentimento de “incompletude” tornam o charme do álbum e colocam ele numa posição bem específica de uma obra que se não única, é interessante o suficiente para ser odiada, amada e discutida.