Selo: Outra Música Records
Formato: LP
Gênero: Experimental / Música Brasileira, Samba
★★★★★
Outra Música, selo criado por Chico Dub, curador do Festival Novas Frequências, tem sido uma das novidades mais quentes do ano. Seu último lançamento, “Isto dando Samba”, é um trabalho magistral que reúne vários artistas, sob direção de Ajítẹnà Marco Scarassatti, para usar o samba como matéria para abordar a música experimental.
Se em “Estudando o Samba”, Tom Zé usa a musique concrète para desafiar a rigidez das tradições musicais do samba, “Isto dando Samba” de Marco se vale da polirritmia, dissonância, atonalidade e música eletrônica, também trazidas das vanguardas européias do século passado, para ampliar ainda mais esse desbravamento sonoro do samba para novos territórios.
Fugindo à classificação, os seis “Istos” aqui presentes usam os instrumentos do samba e a áudio-partitura como método criativo, em que a gravação orienta os convidados a improvisar sobre a obra. Com isso, Marco centraliza na escuta atenta e na interação entre improvisadores a força experimental de um samba que continua se valendo do cavaquinho, cuíca e pandeiro, mas que se apropria de novas técnicas para se libertar de dogmas do gênero.
Em “Isto dando Samba IV”, peça central e que deu origem ao projeto, o canto ritualístico de Juçara Marçal e a cuíca de Paulinho Bicolor orientam as improvisações de Flavia Goa no violão de sete cordas, em que trechos de Brasileirinho, Für Elise (a “música do gás”) e o próprio Hino Nacional, se chocam em dissonância, criando um retrato difuso, fragmentado e complexo de uma memória musical brasileira se manifestando para o consciente.
No Isto II, a única com letra em português, a obra fica metalinguística. Nela, Matéria Prima canta sobre o processo da faixa, em que seu “amigo marquinhos” juntou um time de peso para fazer samba, e como mandou seus versos de última hora. Matéria Prima também mandou sua gravação mais curta que a duração proposta, fazendo com que Marco picotasse o vocal para transformá-lo em beats, na técnica de remix e colagem.
Essa técnica retorna com força no quinto “Isto”, em que Mbé, que é conhecido por seu trabalho de música experimental com som de arquivo, usa seu ouvido curioso para ampliar os horizontes sonoros já audaciosos do disco ao colocar o canto gutural pigmeu e o saxofone de Brötzmann em diálogo com os instrumentos do samba. A atmosfera criada por esse choque traz um sentido de urgência épico em que a cuíca parece uma vocalização de transe, uma tecnologia para estados elevados de consciência. Junto com a nota contínua que se sustenta pela faixa, o “Isto dando Samba V” parece uma profecia sobre o devir do samba.
Há 50 anos, Tom Zé abriu em seu “Estudando o Samba” novas possibilidades para o gênero ao mantê-lo sempre um compasso à frente da rigidez de seus dogmas. Marco Scarassatti e sua trupe chegam para se desprender totalmente do compasso, e projetar ainda mais essa profecia de um samba que respeita, mas não é escravo de suas tradições.
Com o time de elite que conta também com Negro Leo, Inês Terra e muitos outros músicos, o disco é o lançamento mais interessante do ano, e sua intersecção entre a música popular brasileira e as técnicas de música experimental instigam para as possibilidades de novas abordagens para a nossa música, além de criar mais expectativa para o futuro do Outra Música Records.
