Formato: LP
Gênero: Pop brasileiro
½☆☆☆☆
Atualmente, no Brasil, não consigo pensar em outro artista com uma imagem tão polida, bem cuidada e cristalina como a do Jão. Isso permite que o queridinho do mainstream esteja em espaços e inaugure conquistas que muitos veteranos com muito mais contribuições para a indústria musical brasileira jamais imaginaram. Desde o anúncio de seu retorno, no intervalo da novela das nove da Rede Globo — o horário mais caro e privilegiado para anúncios em rede aberta — venho me perguntando o que foi que fez Jão chegar até esse lugar de tanto prestígio.
Será que a resposta está dentro de sua própria discografia, como a narrativa construída em torno do artista (e que ele mesmo endossa) costuma sugerir? A verdade é que nunca fui um grande apoiador de seu trabalho, e deixo isso claro desde já, no entanto, nunca ouço um disco buscando motivos para odiá-lo, mas também não posso mentir e dizer que fui ouvir de peito aberto pois minha relação com a obra de Jão nunca foi das melhores, o que inevitavelmente influencia meu olhar.
O trabalho chega com uma péssima notícia: a morte do pai de Jão, fato que também o motivou a voltar a criar, conforme entrevista recente. Esse tema, embora não seja tanto explorado quanto o esperado dentro do disco, se apresenta de forma bastante naturalizada na primeira faixa, “Catedral”. Isso demonstra que talvez o artista esteja em uma fase do luto que não lhe cubra com tanta melancolia, o que pode explicar de certa forma a maior parte das faixas serem sobre o mesmo tema batido em suas empreitadas anteriores: relacionamentos amorosos.
O álbum reforça tudo o que já sabemos que Jão pode oferecer: uma plasticidade lírica cuidadosamente construída, mas que, para mim, raramente alcança a intimidade que pretende transmitir. Isso porque o compositor sempre tenta criar conexões com um público que se impressiona facilmente com qualquer voz que cante de um jeito minimamente charmoso palavras calculadas para soar “bonitinho”. Pode parecer inofensivo, mas, para mim, poucas coisas me incomodam tanto quanto essa tentativa de fabricar vulnerabilidade, é como se me subestimasse como ouvinte ou como se eu não soubesse identificar o que pode ser considerado “cru” ou íntimo de fato. É apenas fajuto.
De início, o LP apresenta uma sonoridade um tanto confortável, matutina e radiante. A faixa de abertura lembra muito “Solar Power” de Lorde, tanto em sua estrutura melódica de pré refrão voz e violão antecede o refrão em falsete que repete o título da música, quanto pela inclinação para elementos psicodélicos, mas realizado de forma muito redutiva. No decorrer das faixas, ouvimos o mesmo folk/pop mastigado estilo “The Tortured Poets Department” de Taylor Swift, com elementos aqui e ali que o distanciam de soar completamente igual ao seu irmão enfadonho. Em “Por Você”, “Literatura”, “Aurora” e “Passeios Noturnos” temos a presença de algumas flautas, synths e percussão de forma suavizada, trazendo um tempero para esse caldo insosso, mas parece que nada é saboroso o suficiente.
Depois de ‘Aurora’, que nos dá uma falsa esperança de momentos minimamente empolgantes, o álbum retorna à “pau molice” pela qual Jão já é bem conhecido. Para chegar ao fim do disco é preciso travar uma batalha contra a apatia, que está muito mais presente nesse álbum, uma vez que até os maneirismos de composição e cafonice melódica que fazem com que todas as músicas pareçam com comerciais de natal do Carrefour já não sejam mais novidade. Não é possível sentir nada, nem mesmo a amargura de se decepcionar por esperar algo melhor, ou então de sentir desprezo por estar ouvindo algo muito ruim, pois tudo é formulaico e genérico dentro da própria lógica do artista.
Mas de qualquer forma, não podemos chamar de requentado como um todo, afinal, temos muito mais do mesmo em um sentido conceitual, mas muitas novas presepadas também. A começar pela insistência em tratar dos relacionamentos afetivos como o principal motivo por estar vivo, isso chega a ser um tanto assustador em “Por Você” e “O Arquiteto”, com letras que sugerem que a vida está centrada na existência do outro, apagando totalmente qualquer traço de autonomia existencial do eu lírico. Considero até uma mensagem um tanto problemática para jovens que devorarão esse álbum pelos próximos anos, até então perceberem a grande bobagem que estavam envolvidos (ou não).
Um pouco mais adiante, em meio à pobreza temática de sempre, somos apresentados a algo um pouco mais fresco, uma réplica do pop-rock oitentista brasileiro que chega com “Jabuticabeira”. Aqui é possível perceber um exemplo de toda plasticidade e falta de substância de Jão ao tentar construir faixas com tom mais filosófico ou existencial, pautando-se em frases de efeito para quem gosta de cuidar de plantas e utilizando disso a metáfora mais batida para falar de crescimento e cultivo de sentimentos através de gerações. Inclusive, até a escolha do tipo de árvore para elaborar um símbolo nacional soa um tanto quanto calculado.
Em vários outros momentos do álbum, é possível ver as engrenagens dentro do cérebro do artista trabalhando arduamente para fazer com que o público-alvo se convença de sua genialidade, artisticidade e complexidade fajutas, como em “Literatura”, uma faixa feita para se autoproclamar poeta, com clichês de uma suposta melancolia pela vida, mas que segue sem motivação. A essa altura do álbum, inclusive, o que se ouve sonoramente tanto faz, o que nos resta é dividir espaço na mesa com as terríveis melodias vocais que beiram ao ridículo ao cuspirem as letras sofríveis no dedilhado dos violões.
No entanto, não satisfeito em nos fazer aturar seus próprios maneirismos, na faixa “João” o artista performa em tom de cântico pentecostal uma faixa escrita pelo seu namorado Pedro, mais um desafio para ouvintes desavisados do alto teor de cafonice que estão prestes a enfrentar. Esse gesto eu meio que achei fofo, até porque a cafonice precisa ter espaço na nossa vida em certa medida, o problema é que seu cônjuge parece se inspirar demais em sua poética e entrega as frases mais óbvias lidas por qualquer adolescente anos atrás no tumblr, como “Eu só sei te amar mal” e “Eu minto pras pessoas pois não sei justificar / Nossa loucura para os outros”, seja lá o que isso queira dizer.
Mesmo após dura caminhada, os momentos mais piegas estão dissolvidos no final do disco, atingindo seu ápice em “Tudo Me Lembra”, uma faixa que se trata apenas de uma listagem de coisas com cotidianas que remetem a uma pessoa que se perdeu, seja um ente ou parceiro/parceira e que, no final, tenta emplacar um momento emocionante repetindo a frase “tudo me lembra você” em tom mais alto com instrumental exagerado mas muito mal arranjado. Não sei o que é mais óbvio ou literal aqui, mas provavelmente seja uma fan favorite e um grande momento em seus shows, mas para mim, tudo soa de uma forma bem neo-pentecostal.
Preciso separar uma seção (sendo isso já muito insuficiente) para falar sobre as péssimas letras do artista. Isso não é novidade, e para mim, se consolidou em “Me Lambe” do antecessor “SUPER”. Jão sempre faz questão de condensar sentimentos, temas e pessoas relacionando-os a substantivos ou datas, algo extremamente comum no pop mainstream.
Dessa vez, temos novos exemplares não só desse tipo de construção, mas de tentativas artificiais de romantizar o cotidiano — tarefa que considero fácil — como no trecho viralizado “A padaria serviu pães, o hospital fez mães” e também de rimas exageradas sem propósito a não ser por estar cegamente à mercê da combinação sonora, como em “Você é a maior das criações / Caído em tentações / Tenho febre e sensações”.
Ao finalizar a dura tarefa de encerrar o disco sem pular nenhuma faixa, a sensação que predomina é estar diante de mais um exemplar ultra comercial de um amontoado de melodias pegajosas que reforçam um sentimentalismo exagerado no pior sentido da palavra. É feito para pessoas que se dizem intensas se identificarem de prontidão e reproduzirem mais milhares de vezes, e isso é legítimo, mas não pode ser confundido com um trabalho sofisticado quando falamos de criação musical.
Ainda fico sem acreditar na proporção que álbuns como esse tomam e na quantidade de ingressos que se esgotam em estádios por todo o Brasil, mas fico ainda mais chocado com o retrocesso cultural que isso representa. Muito se fala, de forma justa, da grande influência do agro no mercado fonográfico brasileiro e como isso é nocivo para a elaboração de uma geração mais qualificada, afiada, original, criativa e artística da música nacional, mas não podemos ignorar que dentro da própria bolha que faz essa crítica e, no cenário da música pop, também temos grandes símbolos de empobrecimento cultural quando artistas como Jão são forjados como ícones.
