Selo: Netos da Clotilde
Formato: Álbum
Gênero: Hip-Hop, Rap Nacional, Grime, Boombap
★★★★☆
Em um corte que volta e meia viraliza, Clóvis de Barros rememora uma aula que teve com Pierre Bourdieu, relatando a dificuldade para entender o que queria dizer o sociólogo francês ao afirmar que: “Les circuits de consécration sociale sont d'autant plus efficaces que la distance sociale de l'objet consacré est grande”, (ou “os mecanismos de consagração social tornam-se mais eficazes à medida que aumenta a distância social em relação ao objeto consagrado”, em tradução livre).
A máxima do francês tem o intuito de analisar sociologicamente a legitimação do prestígio através do poder legitimador do reconhecimento. Dessa forma, encontra-se a dificuldade de compreender plenamente que essa formulação está justificada, principalmente para quem ouve “Entre o Concreto e o Sonho: Lado A” do Bardek. O braggadocio do rapper da zona oeste é orgânico, pertence ao universo que está sendo construído e faz quem ouve duvidar da natureza ilegítima dos auto-elogios. Acontece por precisar acontecer. É uma urgência da natureza de quem não foi reconhecido pelo mundo. Ao menos não foi ainda.
Entre muitos destaques de uma nova geração que propõe uma forma tão coletiva quanto individual para esse rap carioca descentralizado, os Netos da Clotilde tem uma assinatura particular que confere identidade. O rapper da ZO esgarça as mangas e constrói usando sua introspecção como concreto e seu sonho como a água que dá liga. Essa mesma água refresca o cansaço de uma vida. Bardek é o protagonista do mundo exposto em “Entre o Concreto e o Sonho”.
A faixa que batiza o disco, reúne uma sequência de expressões distribuídas em versos nada letárgicos que acompanham a produção instrumental do Pibara que acalentam qualquer ouvido. “Voo dos Pássaros” é aquele momento encostado no vidro do ônibus, onde a capacidade de reconhecer as vitórias desse cotidiano é o único motivo para seguir. “Vila Alzira” é um passeio pelas confissões que formaram nosso interlocutor: memórias, paixões e ambições. Retrato lindo como uma impressão lenticular que te permite escolher, no meio dessas inúmeras vivências suburbanas.
Poucas faixas concentram tantas definições quanto 'Maria': hino dos cafajestes modernos, ponto alto do álbum e uma das composições mais agudas do disco. A música funciona como uma carta à natureza das relações, atravessando superficialmente tanto a liquidez atual, quanto as exigências do ego único da juventude. O sample tem vocais que ambientam um cenário feminino, que contrasta com a percussão marcada tradicional, que, apesar de pouco inovadora, oferece o equilíbrio que a narrativa lírica exige.
Buscando explicar suas vontades e histórias, “Jovem Faroeste” é o tipo de música que responde ao empenho criativo imposto. O instrumental com elementos jazzísticos sensíveis nos instrumentos de sopro, é refrescante. Os refrões ficam por conta do ARTTY, que ao lado do BDK criam um quadro de camadas, as dobras se alternam entre os presentes, compondo um cenário íntimo, mas convidativo. A intercalação vocal do Bardek é visceral e confere dinamismo para uma faixa que é tudo, menos estática.
Quer um boom bap atravessado num beat solto de camisa larga? Ouça “B.A.R.D.E.K.”. Uma narrativa cronológica com um flow limpo deliberadamente cheio de referências em que as rimas que mais doem são paroxítonas venenosas. Aliterações bem feitas num esforço para mostrar que além de todos os elogios ainda existe espaço para o esmero técnico de quem conhece o movimento do qual faz parte.
Ao longo dos 37 minutos divididos em dez faixas, existe uma repetição coerente, que soa intencional. “Entre o Concreto e o Sonho: Lado A" é um álbum de músicas e também de retratos. Cada faixa funciona como uma foto, que expõe muitas nuances de uma mesma história. Tudo isso é contado aqui, num trabalho que reconhece o protagonismo da própria existência e faz disso âncora lírica do primeiro disco do botafoguense.
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