Crítica | A RECONSTRUÇÃO DA ESSÊNCIA


Selo: Independente
Formato: LP
Gênero: Hip-Hop / Boombap

★★★★☆

‘100k caiu na conta e eu ainda peguei o trem.’ ecoa durante os segundos finais da música introdutória do primeiro projeto compilado do artista paulista PIFF. Descoberto por este que escreve por um anúncio pago dentro do INSTAGRAM, foi notável a crueza e uma simplicidade completamente honesta sobre os desejos de sua vida; sobre o que o faz levantar da cama todos os dias. A faixa “VIVENDO BEM”, um dos singles que precederam o lançamento de seu projeto, se encontra na minha lista de melhores singles de hip-hop do ano, seja pela sua produção totalmente limpa, mas que ainda resgata o sentimento de originalidade que permeia o underground, ou pelos samples diversos durante a execução da música e afirmações que flertam com a abrasividade antes de suas rimas começarem. Há algo de único na forma como o rapper enuncia os seus versos. 

A frase característica é apenas mais uma das que regem a linha de pensamento e conceito que o artista decidiu navegar durante a sua estreia no hip–hop nacional. Escolhendo uma estética que evoca a juventude com samples que remetem ao famoso jogo Pokémon, o rapper faz uma simples pergunta que muitas pessoas hoje em dia realmente não conseguem responder: o que você vê na sua essência? Álbuns de hip-hop não são adversos ao tocar em tal assunto, mas, muitos tocam nestes pontos ao abordarem sobre trajetória, sonhos e objetivos, sem realmente trazerem uma resposta concreta para tal resposta. 

Nesse projeto, PIFF não foge dos seus pensamentos a fim de chegar na resposta desta pergunta, mesmo que, durante a execução da primeira música, consiga chegar à respostas que não são diretas, mas que forçam o ouvinte a realmente repensar qual é a sua essência, qual é o seu propósito nesse mundo. Entre a humildade, amizades — essa que é um dos pontos mais bem trabalhados neste álbum — e a sensação de liberdade atrelada com a dificuldade em ser um artista sem apoio de uma grande gravadora, são alguns dos assuntos que você provavelmente já viu em um álbum de underground, mas nada tão cru, tão real e completamente incisivo em sua entrega. 

Pode-se dizer que não seja um assunto muito concreto para ser desenvolvido em um álbum, e seria ingenuidade falar que o rapper entrega em todos os momentos. Há uma certa inconsistência em sua criatividade e, querendo ou não, durante a dezena de minutos finais do álbum, a criatividade começa a se esvair e o artista entra em uma linearidade não muito agradável. Nessa fase, não se tem mais os instrumentais que evocavam o mesmo sentimento que iniciou na execução do álbum, com a utilização de metais que traziam algo grandioso, o que se atrela bastante com o que o álbum representa ao artista. 

De início, um álbum com pretensões gigantesca mas que acaba se diluindo em sua própria magnitude, PIFF impressiona com refino técnico, esporadicamente inspirado em linhas diretas, com um álbum necessário dentro do hip-hop underground brasileiro, revelando um grande talento que, se souber trabalhar bem assuntos mais complexos e trazer um maior refino lírico, tem tudo para ser um dos nomes mais interessantes dentre o underground brasileiro. 
Gabriel Hurtado

Sem música, não haveria humanidade. Natural do Rio de Janeiro/RJ. Curso Educação Física e Jornalismo. Além de ser redator pelo Difonia, tenho uma substack de lançamentos periódicos de nome Notas+Notas

Postagem Anterior Próxima Postagem