Crítica | ADULTO IDEAL VOL.2


Selo: Som Livre
Formato: LP
Gênero: Hip-Hop / Trap


★★★½☆


Não é algo surpreendente o meu completo desgosto de como a atual organização do subgênero trap music tem se organizado em seus lançamentos. As similaridades começam a ficar escancaradas, a superficialidade se torna motivo de aplauso e as tendências que o subgênero tem abraçado cada vez mais são de caráter completamente banal.

Pois bem. Ryu The Runner consegue me surpreender, de uma maneira extremamente positiva.

Se na primeira versão de sua mixtape lançada no ano passado o artista sofria com todos os problemas que citei anteriormente, o nordestino revira completamente o conceito apresentado e se entrega de cabeça à superficialidade, mas se distanciando do trivial e maçante. Há leves características que conseguem manter um álbum de trap minimamente interessante durante a sua completa execução: o uso de diferentes flows e estilos dentro do subgênero; o conjunto de participações especiais pontuais; leves toques de originalidade e um foco completo em algo sequencial, algo que progride de certa forma. Ryu The Runner acerta em praticamente todos os pontos, de maneira completamente criativa e divertida.

O artista aqui se torna um exímio diretor criativo e traz uma nova força para a sua curadoria. Criando o seu próprio selo, ele integra artistas que fazem parte de tal e colegas de gênero nos quais já tinha uma certa química em colaborações anteriores, como TZ da Coronel e PHL NOTURNBOY, este no qual divide dois dos melhores momentos de todo o álbum. O trabalho ainda conta com a introdução do acrobata lírico LPT Zlatan, que confere com um dos seus melhores versos na música MUN RÁ, na qual o próprio Ryu peca com a sua entrega, mas o artista convidado sabe exatamente como restaurar a atenção do ouvinte. 

No entanto, o que realmente cativa o ouvinte são os instrumentais completamente inspirados e criativos, criando a cada faixa, um mundo próprio, com uma interligação enérgica que se mantém desde a introdução completamente caótica de “VC TA VENDO A CASA CAIR”. O álbum conta com atenuantes em brilhantes faixas como “FÉRIAS”, “TRENDS” e “POTÊNCIA” como exemplos mais firmes em sua tracklist. Há uma leve experimentação em terrenos de artistas semelhantes como em “VÍCIOS”, em que Ryu se entrega ao idiotismo claro de PHL, mas soando agradável e completamente despretensioso aqui. 

A diferença entre exemplos semelhantes é a mixagem muito mais clara e o instrumental bem mais linear, tirando o senso caótico característico de PHL, mantendo ainda uma característica que traz a similaridade. Ryu também utiliza de quebras de flows abruptas que, ou acompanham as mudanças no instrumental como em “PRÊMIO MULTISHOW”, ou simplesmente fazem o completo oposto, vezes mudando o seu tom de voz, vezes ajustando o tal dentro da mudança que ele mesmo estimula. É algo completamente interessante e que traz uma certa estimulação para aquele que entra na investida de bate cabeça que o álbum propõe. 

Mesmo com todas as qualidades que pode oferecer dentro de um projeto de trap, ainda há momentos em que as inventividades não funcionam e se engolem entre si. “CÈLINE” é claramente uma faixa de passagem, não oferecendo nada de novo e sendo facilmente algo completamente passável, além da participação de TZ DA CORONEL, que evidencia a sua queda de qualidade desde a sua introdução na cena. Parece que não há estímulo para uma mudança de letra ou flow, mantendo sempre o mesmo assunto, no mesmo flow, com as mesmas palavras. 

Ryu criou talvez o seu projeto mais polarizante. De certa forma, se torna um quando falha quando tenta sintetizar inovações que ainda não se tornaram cartas valiosas no seu baralho, mas brilha quando foca em demonstrar a estranheza e complexidade incômoda de seus flows e instrumentais, que outrora funcionam pela pluralidade ou pela convenção de gêneros com leves refinos. O artista demonstra que possui um foco e criatividade fora do comum, comparado com seus contemporâneos, o que lhe faz soar muito mais focado aqui do que em qualquer outro de seus projetos, demonstrando uma evolução bastante palpável para o que pode vir a seguir em sua carreira. 

Gabriel Hurtado

Sem música, não haveria humanidade. Natural do Rio de Janeiro/RJ. Curso Educação Física e Jornalismo. Além de ser redator pelo Difonia, tenho uma substack de lançamentos periódicos de nome Notas+Notas

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