Crítica | Train on the Island

Formato: LP
Selo: 4AD
Gênero: Folk

★★★★½

Em seu quinto álbum de estúdio, a música de Aldous Harding continua sua trajetória de ser sempre um enigma, quase como um quebra cabeça. Seu gosto por melodias minimalistas que se tornam progressivamente desconfortáveis sempre foi evidente em todos seus trabalhos, uma aplicação do ethos do The Velvet Underground a fim de distorcer a cultura cantor-compositor. Essa “distorção” também se apresenta em como ela aborda suas composições como uma atriz — algo que vai de encontro a tradição mais biográfica e pessoal desse estilo.


A percussão bem pontuada, mas sutil, que permeia as canções, assim como suas letras abstratas e por fim seus vocais que se transmutam “camaleonicamente” de canção para canção, dão às faixas presentes neste álbum um tom distante dos demais da artista, que faz dele uma experiência desafiadora de certa forma. As melodias podem ser descritas como “bonitas” com uma ouvida casual, mas se desenrolam com um certo grau de perturbação quando analisadas de perto.

As letras autodepreciativas e existencialistas que se tornam ameaçadoras quando entregues com esse tom “impessoal” e sardônico, as inflexões vocais absurdas que ela faz com certas palavras, como ela martela certas harmonias e motifs líricos, através da repetição e da construção esparsa dos seus arranjos, tornam de “Train on the Island” uma obra muito bem arquitetada, com cada nota de piano tocada de maneira mais pesada sendo essencial para a criação desse atmosfera.

Isso se dá seja na batida do sintetizador repetitiva e enervante da bizarra faixa de abertura. “I Ate the Most” (que abre o álbum com a frase “I'm not afraid like you’re not gay / And you're not old, like I'm on the spectrum” e se desenvolve para uma descrição desorientante de dismorfia corporal), seja na bateria desorganizada de “One Stop”, no piano quase imperceptível de “San Francisco” ou nas melodias folk minúsculas de “Riding the Symbol”, finalizando com uma faixa mais “convencionalmente” completa. Outro momento marcante do álbum está em “Coats”, com sua guitarra de indie rock mais densa, e os backing vocals que criam uma aura mais cheia, unindo-se ao refrão direto que de qualquer forma é torcido pelos dedilhados psicodélicos e pela interpretação pingue-pongueante.

Aldous distorce o espírito da “canta-autora” ao afastar o ouvinte da identificação, ela organiza suas palavras por sonoridade, por textura e não necessariamente por significado, ela toma seu posto como intérprete de seus pensamentos e ideias e não como autora deles e isso pega o ouvinte desprevenido e sem saber o que fazer com música que é tão simples e convencionalmente atraente, mas que repele em seus detalhes.

Marcus Vinicius

Profissional da educação com interesse em crítica musical. Redator no Difonia nas curadorias Ambiente, Folk, Pop e Rock

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