Crítica | Músicas Para Ouvir Depois do Rolê

Selo: ONE AND ZEROS
Formato: LP
Gênero: Funk / Mandelão ,Techno


★★★★★

Completando uma trilogia de muito impacto, que conta com o emblemático e recheado de hits “Músicas para ouvir antes do rolê”, e, após apresentar uma prévia dos próximos passos de sua carreira com o EP “ROLÊ”, Dj Adame demonstra que é possível criar uma narrativa que acompanhe a evolução da própria linguagem enquanto passa uma mensagem divertida. Após fechar com o novo selo, One And Zeros, que o acompanha em lançamentos desde o EP lançado em 2025, Adame demonstrou um grande apreço pela música eletrônica em geral, mas foi no Techno que encontrou seu espaço de maior conforto.

Em “Músicas para Ouvir no After”, Adame entrega o seu maior triunfo dentro dessa linguagem polida que vem se desenvolvendo, chegando ao seu trabalho mais bem elaborado, produzido e construído até então. Isso é perceptível não só pela evolução e maturidade que o artista demonstra a respeito de seu próprio trabalho, mas pela auto consciência que o projeto traz em muitos sentidos, seja no nome das faixas que organizam as ideias a serem executadas, seja pela presunção em determinados momentos que no fim das contas entrega o que está prometendo.

Desde que se meteu a produzir, Adame faz música eletrônica dentro dos parâmetros do funk, mas essa lógica se coloca de forma inversa em determinada parte do álbum. No entanto, como se trata de uma narrativa, vamos começar do começo. Em “A Bucetada Melodica”, como o título diz, cria um espaço para experimentação e exercitar a construção melodia do Adame. A faixa brilha muito no momento em que todos os elementos da música começam a se intercortar e criar uma tessitura de sons muito característica do produtor.

Para além disso, o compositor demonstra que entende o peso das palavras dentro das faixas, a forma como elas soam é essencial para aprofundar o beat, nesse caso, convenhamos que poucas palavras soam tão bem como “bucetada”. A primeira vez que tive contato com essa palavra foi em outra faixa, que o produtor nem participa, no álbum Os Humildes Vol. 2, e, de certa forma, fiquei fascinado com a forma como ela soa, criando uma espécie de aliteração que demarca o ritmo da música, assim como os atabaques do funk.

Após sermos rememorados da lógica de melodia e produção do artista, a frenética “Faz Minha Mente” soa como uma série de disparos e mistura muito bem o aspecto acelerado do hard techno com os elementos do funk, inclusive incorpora essa textura nas acapellas. O recurso da repetição é brilhante nessa faixa e demonstra como o artista consegue se moldar a depender do que se propõe a trabalhar, nesse caso, com o techno. Mais adiante, “Ecstasy Effect” é mais um exemplo de como Adame consegue lidar com uma diversidade de sons e estilos e tornar tudo muito característico dentro de sua própria estética.

O uso do berimbau me lembrou bastante conflito, sua faixa “signature”, mas de uma forma inovadora, dividindo espaço com novos elementos eletrônicos distorcidos, que traduz-se em "olá eu sou o produtor de conflito mas você está acessando um lado mais techno e futurista do meu trabalho". Sem pausas para respirar, a faixa se inunda por um grave que toma cada vez mais espaço, como um balão inalando dentro do nosso ouvido, trazendo mais uma camada de textura para a faixa e demonstrando que o funk é quem reina por aqui.

Para seguir essa linha narrativa entre passado e futuro, “Delirando”, surge como uma versão eletrônica e futurista do que seria "Quero te dar" da Valesca Popozuda, um diálogo que serve como exemplo intertextual de como o funk vem se transformando dentro e fora da obra do artista, como uma espécie de demarcador temporal que demonstra o que veio antes para termos o que temos agora, e, ainda, o que podemos ter. É uma faixa com muitos sintetizadores distorcidos, um recurso que Adame desde sempre soube incorporar em seus trabalhos. A faixa é tão fresh e visionária que caberia tranquilamente a voz de Bia Soull, a maior revelação no segmento deste ano, que certamente dialoga com outras valescas popozudas que vieram antes dela.

Falando de ousadia, “O Funk Experiemental” leva o nome ao pé da letra e entrega a faixa com beats mais dissolvidos do álbum, lidando muito bem não só com o ruído mas com o silêncio, incorporando-o como peça primordial da melodia musical. A faixa também traz a famosa tag do dj de forma fragmentada, sendo uma das poucas vezes que ela aparece no álbum. Essa faixa também delimita a metade do álbum, é como o espaço de maior fusão e dissolução do que ouvimos até agora, pois não se trata somente de funk nem somente de techno, e sim, um espaço entre as duas coisas que começa a nos transportar para o lugar que Adame quer nos levar.

Na segunda metade do álbum é onde começa a inverter aquela lógica de criação citada anteriormente. Em “After” cria-se uma atmosfera ritualística, combinando synths, graves, percussões tribais e elementos de corda para trazer uma sensação ancestral, combinando o aspecto sonoro com o que seria a vivência de um after, um espaço mágico entre a festa e a volta para vida real, para o cotidiano. "Monta no Pau" também pode ser caracterizada como uma faixa experimental, pensando na forte influência do industrial no minuto inicial, servindo como ambientação para a sequência mais hard techno do álbum. Ao fundo, ecoa a acapella distorcida, que divide espaço com os estilhaços dessa fusão industrial e techno que emergem cada vez mais.

"Encaixa" apresenta um drum and bass e funk com muitas explosões hard techno, chega a ser uma faixa puramente techno mas que, de uma forma bizarramente adamística, mantém a essência do funk. Aqui o álbum demonstra seu potencial máximo em transitar entre um espaço e outro: tornar o que era música techno com bases do funk, música funk com base techno. "Toma Toma" e "Melhor Forma" nada mais são do que esse espaço em que o hard toma conta do final do rolê. Para quem já viveu boas festas de funk mandelão, sabemos que ao invés de matar a pista, a melhor forma de encerrar os trabalhos é trazer o hard techno e reviver dentro de todos o impacto e as sensações que a pista de dança pode causar. No fim das contas o after de Adame é sobre dobrar a aposta ao invés de se render ao fim.

Dentro dessa trilogia que se encerra, o DJ capixaba demonstrou desde muito cedo não só o potencial de criar hits estrondosos, como “Conflito” e “Sinal do Rock”, mas de ir além e não ficar preso somente ao que as pistas querem ouvir. Adame cria em sua própria trajetória aquilo que as pistas precisam ouvir, sendo neste caso, seu trabalho mais bem lapidado até então. O que eu quero dizer com isso é que, quando pensamos em Adame, sabemos que podemos esperar um alto nível de qualidade de produção e criatividade, além disso, sabemos que existe uma identidade de produção muito bem delimitada, com a mistura de elementos de maneira única e limpa, que só ele sabe fazer. É um tipo de manejo do ruído que faz com que tudo seja nítido, identificável, penetrante e hipnotizante, mas que ainda sim não deixa de ser barulhento. Esse tipo de barulho ficou ainda mais nítido neste trabalho, mas agora retratado com um requinte a mais, de uma forma melhor elaborada, consistente e viciante.

De maneira geral, não existem formas de tratar um trabalho como esse sem beirar o piegas e apelativo, mas as palavras estão aí para serem usadas, portanto, é imprescindível afirmar que existe genialidade, esforço, cálculo, criatividade, personalidade e muita experiência envolvida na construção de um projeto que foi tomando forma aos olhos do público e se tornou algo grandioso. Músicas para Ouvir No After”, retrata, na verdade, o pré, o agora e o futuro do funk de forma muito singular e experimental, feito pelas mãos e ouvidos de um jovem e excelente produtor musical. Adame demonstra, da sua maneira, a excelência e potencialidade artística que o funk tem e onde pode chegar, dentro de uma lógica estrutural muito original que só o funk vai ter.

Lucas Granado

Mestre em Letras, nascido em Curitiba. Participei da curadoria de funk do Aquele Tuim e hoje em dia sou editor do Difonia.

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