Seleções que você precisa ouvir

Para entrar no clima da Copa sem fugir da nossa linha editorial, o Difonia preparou uma curadoria musical inspirada no torneio. Reunimos nossa equipe para selecionar 16 obras musicais, representando cada um dos países classificados para as oitavas de final. A seleção não é um ranking; os países foram distribuídos por sorteio e as escolhas tiveram caráter livre, garantindo que cada redator pudesse recomendar o trabalho mais autêntico de sua respectiva nação, variando livremente entre discos e singles.

 Argentina

“Dolce&” - roro (2024)

SINGLE

Fruto direto da intersecção hiperconectada entre o TikTok e o SoundCloud, a sonoridade de roro se constrói como uma colagem digital caótica e charmosa, na qual a estética do Y2 se costura diretamente à crueza rítmica e performática da cena ballroom. Embora sua produção não chegue a reconfigurar as estruturas fundamentais do deconstructed club — um gênero que, afinal, já possui bases estéticas e conceituais bem sedimentadas na última década —, o verdadeiro trunfo da artista não reside na invenção pura de uma nova linguagem, mas sim na sua capacidade de síntese dessa referências, seu trabalho consegue explorar bem a capacidade dessa estética juntamente com o deconstructed club.

– Antonio Rivers

Bélgica

Letter To Yu - Bolis Pupul (2024)

LP

Para além de referências belgas muito conhecidas e importantes em seu modo para a música pop europeia, como Angéle e o icônico Stromae, outro nome interessante para a música pop/eletrônica do país é Bolis Pupul. O artista ficou conhecido pelo álbum “Tropical Dancer”, uma parceria efervescente com Charlotte Adigéri que trouxe muito reconhecimento para a dupla no ano de lançamento. No entanto, o produtor provou que também consegue brilhar muito bem solo, refletindo suas raízes chinesas no seu primeiro álbum de estúdio Letter To You, um disco eletrônico de synthpop pensado um tanto para as pistas, mas que funciona melhor nos fones de ouvido — ao meu gosto pessoal. É uma mistura muito gostosa de elementos da cultura chinesa, não só com a introdução do mandarim e cânticos folclóricos, mas também pelo staccato ao cantar durante melodias que remetem ao idioma e a cultura oriental em geral. Isso tudo se encorpando dentro de um caldeirão eletrônico em fogo brando que borbulha de forma contida, mas ebule. Vale a pena conferir ambos trabalhos no formato de LP do músico e também acompanhar os DJs sets ao vivo, caso surja uma oportunidade.

– Granado

 Brasil

BRIME!! - Febem, Fleezus, CESRV (2026)

EP

Em clima de Copa do Mundo, nada melhor do que um trabalho que tem o esporte como um dos pilares da sua identidade. Lançado em maio, Brime!! marca o retorno do trio paulista formado por Febem, Fleezus e pelo produtor CESRV ao projeto criado em 2020. Assim como o futebol, os artistas adicionaram o toque especial brasileiro a um som originalmente inglês. Se a parceria nasceu após o trio ir direto à fonte em Londres, mesclando os elementos do grime com o rap e funk brasileiro, o terceiro disco dessa colaboração traz uma sonoridade ainda mais própria e madura, com letras que transitam entre críticas sociais, referências de futebol, vivências da noite e da vida na periferia, cada verso carregado de rimas empolgantes. Um dos trabalhos mais interessantes deste ano, Brime!! mostra exatamente o que os três sabem fazer de melhor e consolida o crescimento do gênero na cena.

– Taynara Lima

Canadá

“Papa Wemba” - Pierre Wenders (2022)

SINGLE

Pierre Wenders em sua faixa “Papa Wemba” tece a canção em lingala e francês ao fazer uma homenagem ao artista congolês homônimo e principal referência da rumba congolesa (ritmo inscrito na Lista do Patrimônio Imaterial da Humanidade da Unesco); Ao flutuar entre algumas de suas melodias e realocar suas faixas como um possível herdeiro entre referências à moda de luxo e à dança, a faixa é uma exaltação ao legado e memória de Papa Wemba, aquele que nas palavras de Pierre foi o "Rei da Rumba" e seu ídolo de infância.

– Gabriel Bispo

Colômbia

Tatekieto - PulciPerla (2025)

LP

Se o futebol é uma invenção inglesa e os sul-americanos fizeram um trabalho de cooptação desenvolvendo um style de jogo que é a sua própria identidade, nada melhor pra representar o vistoso futebol da seleção colombiana como Tatekieto, um trabalho onde a banda francesa Pulcinella se funde com o grupo colombiano La Perla. Como PulciPerla, a efervescência da cumbia entra em tensão com as formas comuns do jazz e rock progressivo, engendrando uma nova identidade a partir dessa simbiose. O resultado é um grande golaço.

– João Pedro Leopoldino

 Egito

Dying Is The Internet - Abdullah Miniawy (2026)

LP

Artista interdisciplinar, Abdullah Miniawy é um escritor, compositor, cantor, trompetista e ator egípcio. Cantando em árabe com melismas, técnica vocal estendida e autotune, ele tem sido a voz à frente de algumas das produções eletrônicas mais interessantes dessa década, em colaboração com diversos produtores. Em especial, seu trabalho com o francês Simo Cell o aproximou das pistas de dança, mas longe de perder o caráter desafiador de sua música. O último trabalho da dupla, Dying Is The Internet, lançado em março deste ano, é descrito por eles como uma crítica a como a internet perdeu sua alma. É um trabalho viciantemente imprevisível em sua recusa de uma música eletrônica rígida, e faz isso com personalidade e virtuosismo em meio ao caos.

– gambito de rafinha

Espanha

VERANO SAUDADE - Judeline (2025)

EP

É com o seu ar místico e transcendente, a proposta de um pop experimental e fortes influências da música flamenca que Judeline constrói seu universo deveras ritualístico e o expande do sul da Espanha para o mundo. A artista tem se tornado um dos nomes mais interessantes em ascensão na música espanhola. O seu álbum de estreia, o ótimo Bodhiria de 2024, é em grande parte responsável por reverberar o nome da artista, mas a principal indicação de sua discografia vai para o EP VERANO SAUDADE, seu trabalho mais recente. Nele, Judeline transita por diferente subgêneros ultrapassando fronteiras, do UK bass ao funk, feats com Seda Bodega, Amaia, DELLAFUENTE na deliciosa “tiempo passa” e o encerramento com o refrão icônico da Mc Morena em “TÚ ET MOI”. Esse trabalho dá um gostinho de quero mais, e nos faz ficar ansiosos com os futuros projetos da artista.

– Paula Cruz

Estados Unidos

The ArchAndroid - Janelle Monáe (2010)

LP

Embora seja um tanto incômodo admitir que os Estados Unidos concentrem uma oferta tão esmagadora de boas opções, o cenário musical atual encontra-se saturado de artistas falhando miseravelmente ao tentar forçar uma profundidade teatral em seus discos, o que torna urgente resgatar uma pérola como The ArchAndroid. Mesmo sendo extensa, sua duração se justifica por uma qualidade ímpar, na qual as brincadeiras pelo R&B, Soul e Funk se desdobram de maneira inigualável, consolidando um arrebatador divisor de águas sonoro.

– Antonio Rivers

França

Tako Tsubo - L'Impératrice (2021)

LP

A música eletrônica francesa carrega uma tradição marcada por nomes como Daft Punk, pioneiros do French house e responsáveis por expandir os limites do gênero. Essa influência aparece de forma predominante em L'Impératrice, banda que mistura disco, funk, synthpop e música eletrônica. Seu destaque é Tako Tsubo (2021), segundo álbum de estúdio da banda, construído sobre sintetizadores bem marcados, grooves elegantes e com uma estética retrô-futurista. Enquanto a sonoridade remete ao passado/futuro, as letras abordam temas como o controle das emoções e as questões da vida moderna, criando um disco capaz de transportar o ouvinte para uma realidade tão nostálgica quanto futurista.

– Talita Mutti

Inglaterra

Lust For Life, Or: How To Thread The Needle And Come Out The Other Side To Tell The Story - Courting (2025)

LP

O epicentro europeu do mainstream, contendo bandas como Oasis, Coldplay, Radiohead e tantos outros artistas com multidões de fãs. Entretanto, quando fugimos um pouco da badalação, encontramos artistas extremamente talentosos, como a banda de indietronica Courting. Em atividade desde o início dos anos 2020, o grupo ousa em misturar elementos de diferentes gêneros no rock, tornando a audição de sua discografia sempre surpreendente. Prova disso é o seu mais recente disco Lust For Life, Or: How To Thread The Needle And Come Out The Other Side To Tell The Story, um dos destaques do indie rock no ano de 2025.

– Davi Landim

 Marrocos

Middle Ouest - Bergsonist (2020)

LP

Guiada pela premissa da total emancipação criativa, a produtora marroquina Bergsonist define seu próprio ecossistema eletrônico como algo genuinamente livre de amarras, filosofia que se materializa de forma visceral em Middle Ouest, um álbum concebido como uma densa e íntima autobiografia sonora. O trabalho se estrutura a partir da volatilidade da improvisação e cruza elementos da música eletroacústica com a cadência hipnótica do downtempo, o que fatalmente provoca um estranhamento inicial no ouvinte que se depara com a recusa deliberada da previsibilidade rítmica. Contudo, é justamente nessa zona de fricção incômoda e na profundidade monumental de suas texturas que a obra reveals sua genialidade, transformando o ruído e a repetição em uma experiência sensorial avassaladora que se consolida como um primoroso exercício de narrativa abstrata e design de som.

– Antonio Rivers

México

Mi Verdad Corridos Tumbados - Natanael Cano (2019)

LP

La Cucaracha? La Negra? Não só isso. Um dos estilos que vem representando as vivências e culturas mexicanas são os Corridos Tumbados, que unem as tradicionais cordas com instrumentais frequentemente utilizados no trap e rap. Um dos destaques no gênero é Natanael Cano, que lançou o álbum Mi Verdad Corridos Tumbados, no ano de 2019. Em 2022, ele pôde usar o palco do Coachella para sacramentar a força do subgênero na música mundial.

– Vinicios Cotrim

Noruega

Diabolical Fullmoon Mysticism - Immortal (1992)

LP

Qualquer pessoa que conhece minimamente o tema, pensa automaticamente em black metal quando ouve falar sobre música da Noruega. Honestamente, é difícil escolher uma só banda diante de tantos clássicos (Mayhem, Gorgoroth, Burzum, Darkthrone…), porém a mais interessante de todas é Immortal. Diferente das outras bandas da segunda onda do black metal, a música do Immortal é menos baseada na criação atmosférica e mais baseada em riffs e em estruturas consideravelmente mais técnicas. Seu álbum de estreia Dyabolical Fullmoon Mysticism demonstra perfeitamente como é a banda, em uma atitude mais descompromissada e, ao mesmo tempo, igualmente engajada, faz um disco cru, influente e extremamente interessante em todos os aspectos. Uma das bandas mais interessantes do gênero black metal e, sem dúvidas, do metal como um todo.

– Tiago Araujo

Paraguai

En el Medio del Desorden - Los Ollies (2025)

LP

Com referências que transitam entre o rock em língua inglesa e o indie hispânico, Los Ollies é um trio paraguaio que transforma nostalgia em música. Em seu único álbum de estúdio, En el Medio del Desorden (2025), a banda começa com um pop rock melódico, marcado por guitarras bem trabalhadas e letras que dialogam com o que é jovial, como em "Luces de Neón". À medida que o disco avança, a sonoridade ganha peso e incorpora um discurso político mais evidente, com letras firmes e instrumentais mais agressivos. O resultado é um indie pop/rock que renova a cena paraguaia sem deixar de ser acessível para ouvintes de qualquer lugar do mundo.

– Talita Mutti

Portugal

Incoerente - Elisa (2026)

LP

Vencedora do Festival da Canção em 2020, a madeirense Elisa faz do disco Incoerente, recém-lançado em maio deste ano, um escape perfeito para quem deseja fugir um pouco do som que domina as paradas lusitanas. Nascido de um bloqueio motivado por fins de relacionamentos e frustrações na carreira, o álbum abriga as várias versões da cantora. Essa atmosfera confessional norteia o pop acústico de "A Porta" e ganha requinte com "Talvez Um Dia (feat. Tiago Sena)", amarrando a obra com enorme esmero.

– Gabriela Caligares

Suíça

Paysage d'Hiver - Paysage d'Hiver (1999)

LP

Já em um estágio consideravelmente tardio do black metal, Tobias Möckl começa sozinho o projeto Paysage d'Hiver. O projeto é conhecido pela atmosfera, criada por uma união entre as guitarras constantes e os sintetizadores, relembrando o começo do black metal atmosférico, como “Hvis Lyset Tar Oss” do Burzum. O álbum mais famoso da banda é o autointitulado de 1999, que não somente dá continuidade a essa tradição atmosférica, mas utiliza essas ferramentas para inovar, criando essa “paisagem do inverno” de forma nunca antes vista no gênero. Não é uma música bonita, é quase opressora, porém uma das experiências estéticas mais únicas no metal de todos os tempos.

– Tiago Araujo

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