Crítica | EQUILIBRIVM II


Selo: Republic Records
Gênero: pop brasileiro
Formato: LP


★★★★☆


Os últimos meses de Anitta tornaram-se palco do maior pico da sua carreira. Após incessantes tentativas – na maioria bem-sucedidas – em adentrar em um contexto mercadológico internacional, como em Versions Of Me, a cantora carioca finalmente desembarca em seu lar, o Brasil.

Para alguns, isso seria um “retrocesso” em meio à ascensão de novos artistas como Fcuckers ou Doechii, que ampliaram o seu hall de possibilidades dentro da indústria em tão pouco tempo. Porém, para Anitta, pisar em solos tupiniquins foi o seu divisor de águas. 

O reencontro da morena com a brasilidade já havia sido implantado em “Aceita”, faixa do Funk Generation que firma a sua identidade candomblecista no mundo, não demorando muito para que isso a inspirasse a produzir EQUILIBRIVM (2026) trazendo o lado mais pessoal de Larissa ao jogo.

A matriz religiosa afro-brasileira do seu cerne mais íntimo agora é interligada ao profissional. A partir do primeiro atabaque, Larissa e Anitta se unificaram para criarem uma pesquisa social e política aprofundada sobre as influências de ritmos do candomblé, umbanda e outras religiões de mesma nascente em um trabalho coeso, sincero, vulnerável e o mais elaborado de sua discografia. Clássico instantâneo.

Agora, poucos meses depois do primeiro lançamento, EQUILIBRIVM Parte II é a metamorfose natural do trabalho antecessor, mas agora representando a evolução artística transcendente que já era necessária na carreira de Anitta há quase uma década dentro da zona de conforto estabelecida em projetos que o antecederam.

Assim como a primeira parte, o disco continua a falar sobre assuntos como qualidade de vida e renovação da fé em meio a obstáculos do cotidiano, só que a sua abordagem por instrumentos percussivos, camadas de vozes e referências musicais fica cada vez mais densa, perfeccionista e complexa.

Isso é melhor apresentado em “Não Me Cutuca”, em que o macumbeats recorrente do projeto se une ao forró em uma grande harmonia com Alceu Valença. Além deste, gêneros como coco, samba e reggae (também presente na primeira parte) ficam ainda mais refinados e sem a sensação de higienização do formato para se adequar ao gosto geral. As coisas fluíram melhor aqui quando misturaram o orgânico (atabaques, bumbos, cordas…) com o inorgânico (sintetizadores, graves…).

Falando em influências jamaicanas, “Tudo Isso” é uma grata surpresa após a estrondosa “Deus Existe”. Anitta se joga em trompetes a lá Edson Gomes em Apocalipse (1997) enquanto canta sobre a superação de questões negativas que nos rodeiam em pleno cotidiano. Uma das melhores músicas do disco.

Já “Oke”, com Brô MC’s e Katu Mirim, transforma o macumbeats em eletromacumbeats! Algo que ressoa as pistas de dança – já mortas – de Charli XCX em BRAT (2024) de tão diferente em tudo que a cantora já havia feito na primeira parte (mesmo considerando uma prima de segundo grau de “Nanã”).

Esse cuidado que vos falo vem de uma árdua colaboração com um time de peso que compõe as parcerias do disco agregam ao universo de EQUILIBRIVM (e não apenas aquelas que cantam, mas também que estão na mão na caneta) sem nenhuma ruptura, mas colocando-os em uma zona incomum. 

Dentre os maiores exemplos, não há como esquecer de “Sem Pressa” com a MC Tha, pioneira da mistura de gêneros musicais com as influências das religiões de matriz africana no hinário Rito de Passá (2019). A sua união com Anitta foi como um casamento perfeito entre dois mundos semelhantes que se colidem uniformemente, um desejo que foi saciado da melhor maneira. Banquete para os ouvidos.

Já em “Ogum Me Rodeia”, Maria Bethânia não solta o baita vozeirão que guarda em seu peito, mas carrega um rápido monólogo em suas costas, assim como somos apreciados no dueto singelo entre Larissa e Letícia Fialho.

Além das participações, Djavan e Carmen Miranda são homenageados em nas respectivas faixas “Azul”, uma versão um tanto baixo astral da potencialidade versão eternizada por Gal Costa; e “Pra Você Gostar de Mim”, que ainda consegue aquecer o coração tal qual a original.

Apesar de serem as primeiras impressões de um disco recém lançado – afinal, todos nós sabemos que opiniões variam ao decorrer do tempo de escuta – a constatação é clara! Estamos presenciando uma drástica mudança de postura de Anitta diante dos seus principais lançamentos, uma paixão incandescente que não víamos desde Bang (2016).

Os profissionais — escolhidos a dedo — que estiveram na produção, composição e instrumentação levaram o disco da cantora a um novo patamar jamais alcançado em sua carreira. É a partir da experimentação em todas essas instâncias que criam um ambiente para que mantenha-se o mesmo nível de exigência nas futuras produções de Larissa.

EQUILIBRIVM (a era) é uma grande carta de reconciliação com a arte, um pedido de desculpas por a ter abandonado tão cedo. Neste momento, escutando o disco pela segunda vez, é ainda mais compreensível as lágrimas que escorriam no rosto de Anitta em cada finalização, stories ou entrevistas sobre o projeto. Porque, acima de tudo, quando finalmente fazemos algo que amamos com prazer é algo inegociável.

Lu Melo

Estudante de Jornalismo, 20 anos. Já fez parte do g1 Alagoas e Revista Alagoana. Atualmente escreve para o Aquele Tuim na curadoria de música brasileira.

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