
Formato: LP
Gênero: Hip-Hop
★★★★½
Isaiah Rashad é o artista de hip-hop que mais exercita a dualidade masculina nos dias de hoje, com letras que se permeiam entre reafirmações do seu frágil ego, atacando inimigos com batidas eletrizantes e dançantes e, em justaposição, músicas completamente introspectivas, como se ele estivesse com uma arma em sua boca, contemplando as suas falhas, pecados e seus vícios inerentes.A sua constante batalha com a bissexualidade — que foi finalmente assumida de forma nada natural e contra a sua vontade, com o vazamento de um vídeo íntimo — exemplifica bastante essa confusão inerente que há dentro de si. Mesmo em uma sociedade que abraça e respeita, ainda há uma certa pressão na afirmação de sua masculinidade, que pesa ainda mais por conta de sua cor de pele. Essa afirmação não é gratuita; é para sua sobrevivência.
Mas, após literalmente ver a sua casa pegar fogo, ele volta 5 anos depois, convivendo com o caos dessa tal sobrevivência: sóbrio e com o peso de ter que viver com as suas próprias contradições. Ele flerta com a queda de si e com a queda dos seus familiares, principalmente a sua irmã que está presa — vide “THE NEW SUBLIME” —, em uma introdução que expande ainda muito mais o nosso imaginário sobre o tal artista, que navega em influências do jazz rap para mostrar o prefácio do caos interno que vive. Ele também condiciona essa contradição e a traz palpável, como vemos em "HAPPY HOUR", que tem um instrumental que remete à alegria, um boom bap característico com um piano cintilante, mas que vê o artista contemplando a paranoia de estar vivo e sentir a urgência da morte.
O álbum tem o seu clímax em "ACT NORMAL", quando, confrontado com os traumas e comportamentos sádicos de sua família, ele cria um certo senso de normalidade com tais comportamentos, sendo obrigado a agir normalmente ao observar tais coisas. Mesmo em um instrumental que, novamente, traz essa percepção mais leve, o rapper mostra a sua grande capacidade de mostrar o contraste entre o bem e o mal, o leve e o pesado, a apatia e a urgência.
O projeto soa libertário, abraçando as raízes de sua cidade natal, mas mostrando o toque íntimo e mais fluido. Seja pela grande influência do jazz na grande maioria das faixas, que trazem um instrumental muito mais vivido e orgânico em comparação aos seus atuais contemporâneos — mesmo sofrendo com uma leve inconsistência na parte final do álbum —, Isaiah demonstra o quão ruim tem sido o desafio em que vive, mas é exatamente isso que o faz ser cativante e importante dentro do hip-hop: ele é verdadeiro e humano, algo que desesperadamente precisamos nos dias de hoje. Ser humano.