Crítica | Orion/Mother

Formato: LP
Selo: American Dreams Records
Gênero: Experimental / Free Improvisation, Free Jazz

★★★½☆

Em Orion/Mother, seu mais recente e ambicioso álbum duplo, Alex Zhang Hungtai resgata uma vasta biblioteca particular de experimentos musicais que, acumulados ao longo dos anos, servem de matéria-prima para um profundo exercício de reconstrução sonora. Esse resgate se concretiza por meio de gravações de ensaios registrados no passado ao lado de alguns dos improvisadores mais inventivos da cena de Nova York, entre os quais se destacam o percussionista Che Chen e o experimentalista Leo Chang, cujas contribuições originais ganham uma nova perspectiva sob o olhar retrospectivo do artista.

Ao se debruçar sobre esse arquivo adormecido, Hungtai utiliza ferramentas digitais de edição para retalhar, descontextualizar e samplear essas memórias antigas, amalgamando-as a percussões inéditas e texturas eletrônicas que transformam o disco em uma reescrita sonora fascinante. É justamente nessa fusão em que o passado e o presente não apenas coexistem de forma pacífica, mas colidem e se ressignificam mutuamente, fazendo com que o registro pulse como um organismo vivo, imprevisível e em constante mutação.

Dessa colisão deliberada emerge a grande força motriz conduz a obra, qual seja, uma dualidade tensa e magnética que oscila sem cessar entre o ruído desagradável e a contemplação mais profunda. Ao abdicar de qualquer concessão que vise ao conforto imediato do ouvinte, o músico constrói uma sonoridade intimidadora para quem se aproxima sem o repertório necessário para digerir tal proposta, provocando um estranhamento estético que, longe de ser um erro, torna-se o próprio motor da audição.

O primeiro contato com o álbum tende a gerar um inevitável conflito cognitivo, visto que a abstração radical das faixas coloca o ouvinte em uma posição de constante dúvida, na qual as certezas tradicionais da melodia se dissolvem em um emaranhado de sons que parecem se repelir mutuamente, em vez de buscarem uma complementaridade harmônica óbvia.

No entanto, é precisamente na insistência desse desconforto que se revela a beleza lapidada de Hungtai, cuja engenhosidade sutil converte a aparente crueza em atmosferas de densa imersão, demonstrando que o caos percebido é, na verdade, um rigor estético meticulosamente planejado.

Essa vivacidade orgânica deve-se a uma metodologia de composição espontânea que rejeita veementemente as estruturas pré-fabricadas ou as bases coladas de antemão, criando no ouvinte a nítida impressão de que a música está sendo esculpida e moldada em tempo real, bem diante de seus ouvidos. Inspirado no método de condução de Butch Morris, Hungtai canalizou um período de intenso isolamento e transição pessoal durante o rigoroso inverno nova-iorquino, impondo-se uma rotina de estúdio tão estrita que acabou por eliminar qualquer rastro de hesitação ou dúvida criativa no momento da execução.

Apostando na amplitude do silêncio, no desgaste provocado pela repetição exaustiva e no alongamento drástico das texturas, o artista vai moldando o som centímetro a centímetro, permitindo que seu trompete surja não apenas como um instrumento melódico, mas como a força de ancoragem e o narrador conceitual absoluto de toda a obra.

É esse sopro contínuo que costura os fragmentos dispersos do passado, atravessando desde da eletrônica industrial de "Earth Orbit" até as batidas rituais e densas que caracterizam a faixa-título, "Mother".Ao utilizar o sopro como ferramenta de mediação entre o registro documental do passado e a interferência digital do presente, Hungtai consegue conferir uma ordem inteligível a fragmentos que, anos antes, haviam sido abandonados como ensaios inacabados.

O álbum duplo se encerra, portanto, consolidando-se não através de um virtuosismo estéril, mas como um processo de reconciliação formal, no qual o estranhamento, a crueza e o silêncio deixam de ser subprodutos do acaso para se tornarem os alicerces de uma arquitetura sonora inteiramente consciente de suas próprias tensões.


Antonio Rivers

Me chamo Antonio Rivers, graduando em História, amazonense nascido em 2006. Faço parte do Aquele Tuim, nas curadorias de Experimental, Eletrônica, R&B e Soul.

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