Para comemorar o Dia Internacional do Orgulho LGBTQIA+, a equipe do portal Difonia elegeu sua lista de 15 melhores músicas de artistas LGBTs que representam a diversidade e o talento da comunidade. Para esse processo, foi feito um ranking individual, e depois a somatória das listas individuais para dar resultado a essa lista.
15. “Kerosene!” - Yves Tumor
2020
Yves Tumor é uma das mentes mais brilhantes do rock alternativo nos dias atuais, tratando-se de um artista brilhante e pouco explorado entre a comunidade LGBTQIAP+ em geral. A faixa “Kerosene!” é um clássico épico que fala sobre estar entregue aos desejos do outro em relações diversas, brincando com papéis de gênero e o combustível necessário para manter a chama de uma relação acesa. É por isso que, em determinado momento, o dueto com Diana Gordon entra em combustão e libera uma boa dose energética de vocais absolutos e guitarras estridentes a lá Prince e outros momentos marcantes do rock, funk, soul e shoegaze.
– Lucas Granado
14. “TRANSGRESSÃO” - Jup do Bairro
2020
“Transgressão” é uma faixa tão visceral, com um instrumental denso e ao mesmo tempo etéreo. A faixa abre o projeto de estreia da Jup do Bairro, e é uma síntese conceitual de um “Corpo Sem Juízo”, Jup canta suas vivências, dores, e o poder de estar no controle da sua própria narrativa, transitando pelas infinitas possibilidades de ser e estar, ela conclui que transgredir é se libertar. “Ter um corpo que transita e me faz enxergar/ Eu vou, eu sigo, eu estou onde eu sempre quis estar”.
– Paula Cruz
13. “Imaginary Landscapes No. 1” - John Cage
1939
A verdade é que parece difícil, do ponto de vista da crítica, ter algo mais a dizer sobre um clássico de John Cage. Legal então seria não repetir o gesto de falar sobre a inovação teórica e técnica dessa composição, mas relembrar o quão importante é pensar que alguns desses clássicos inescapáveis são também parte da história LGBT. Não é o estereótipo de música que se espera hoje, mas é nossa. A produção técnica é importante, mas a caminhada pelos becos de Nova York também fazem grande diferença…
– Tiago Araujo
12. “Temperos Destruidores” - BUHR
2019
A natureza incontrolável de BUHR, que a acompanha desde Eu Menti Pra Você (2010) e mais brevemente em Selvática (2013), transforma “Temperos Destruidores” uma das músicas mais catarticamente belas da música brasileira. A estridência da guitarra misturada com os batuques do maracatu (quase psicodélico) percorrem a beira de cada ouvido e, para deixar ainda mais grandioso, a cantora pisou no próprio pé e canta em marcha para todos escutarem os seus versos. No mundo de BUHR, cada palavra é lei, mesmo em fúria. Inacreditável.
– Lu Melo
11. “Annabel” - Goldfrapp
2013
Uma balada minimalista sobre uma criança intersexo que é escondida pela família e forçada a ser criada como um menino -- o tom cinemático instituido pela voz sussurrada de Alison e as cordas dramáticas dão um quê de um clássico literário gótico na canção, incutindo essa atmosfera de mistério a história de Annabel.
– Marcus Vinícius
10. “Insiste em Mim” - Ana Frango Elétrico
2023
Provavelmente nenhuma outra canção de amor da música brasileira recente captura tão bem o zeitgeist a ponto de se tornar trilha para toda uma geração de casais. Identificável já nas primeiras notas, é impressionante como uma música tão pessoal e sincera cativa multidões no show de Ana, ume nbzinhe que fica gigante no palco. Elu mostra que a imensidão do amor reside na liberdade do outro, não na posse.
– gambito de rafinha
9. “Fast Car” - Tracy Chapman
1988
Simples e impactante, Fast Car é o primeiro single do álbum de estreia de Tracy Chapman, lançado em 1988, e também responsável por levá-la à ascensão. Com alguns acordes de violão, Chapman narra uma história que envolve o mito do sonho americano, as dificuldades da vida e o anseio em fugir de um lugar. A canção também se tornou um hino de resistência e esperança para a comunidade LGBTQIAPN+, especialmente para as lésbicas. Se naquele ano Fast Car já era subversiva e política, quase 40 anos depois segue um clássico para diferentes gerações.
– Taynara Lima
8. “Enviadescer” - Linn da Quebrada
2017
Saber que "Enviadescer" tem quase dez anos traz uma sensação utópica, principalmente porque a comunidade atualmente parece renegar sua própria história e identidade. Contra esse apagamento, a força da Linn da Quebrada nos convoca a celebrar o afeminamento sem amarras, escancarando que “não tem nada a ver com gostar de rola... cola junto as transviadas, sapatão”, em um manifesto cru que a gente tem a urgência de escutar no talo ainda hoje.
– Antonio Rivers
7. “Gloryhole” - TR/ST
2016
Essa faixa tem uma melodia hipnotizante, acredito que seja uma das músicas de synthpop mais bem construídas que eu já ouvi, com um apelo dark e um toque de mistério e sensualidade que criam uma atmosfera extremamente envolvente, muito característica de Robert Alfons. O conteúdo lírico, que inicia após dois minutos de uma sinfonia eletrônica cativante, explora a liberdade sexual e a relação do ser humano com o desejo que somente a juventude pode proporcionar, que num segundo momento, dão espaço para a alusão ao “gloryhole” — uma prática fetichista muito popular entre homens gays — e tudo de “branco”, “quente”, “lustroso” e latente envolvidos no ato, assim como a perda da inocência e deslumbre pela luxúria.
– Lucas Granado
6. “Quinta” - cabezadenego feat. Mbé e Neyblack
2023
Sensual e penetrante. “Quinta”, de cabezadenego. bebe da fonte alucinante próxima da apaixonada balada alternativa em que Letrux se situou em “Flerte Revival”. Porém, enquanto a carioca ia para o eletrônico oitentista, nego segue em direção a uma pista de dança sem freios, em que o rumo apenas parte da singela forma de contar como o amor pode ser hipnotizante aos olhos de quem está atrás de alguém em meio a uma festa interminável.
– Lu Melo
5. “Mequetrefe” - ARCA
2020
Em "Mequetrefe", Arca une a genialidade de sua produção a um manifesto de coragem. A faixa começa como um reggaeton vibrante, até colapsar intencionalmente em ruídos industriais e distorções sombrias, uma tensão sonora que traduz o peso e a dúvida do julgamento público. Quando o beat volta limpo e explosivo, a mensagem se escancara: recusar carona e apenas caminhar pelas ruas vira a celebração feroz de quem banca a própria identidade fora da norma sem ligar pra ninguém.
– Antonio Rivers

4. “Sister Ray” - The Velvet Underground
1968
Sendo direto, Sister Ray é o que é: uma música de 17 minutos e 29 segundos sobre um gay traficante (palavras do Lou Reed) que acaba envolvido em uma orgia com travestis, drag queens e militares. 1968, ano auge dos movimentos de contracultura, uma música gravada em um take, basicamente sem mixagem, sem pretensão alguma. Fica claro o porquê dos membros do Velvet escutarem tanto o The Shape Of Jazz to Come na mesma época. Complexo no simples e simples no complexo. Patrimônio histórico da música.
– Tiago Araujo
3. “Your Love (feat. Jamie Principle)” - Frankie Knuckles
1987
Catártica e sensual, essa faixa do Padrinho da House Music é uma das peças que ajudou a moldar o gênero. Mais que uma trilha sonora, ela foi um dos ingredientes que permitiu a vários jovens queer negros e latinos de Chicago viverem suas primeiras experiências de plenitude na pista de dança, numa fissura do espaço-tempo criada pela comunidade das casas noturnas em meio ao conservadorismo da Era Reagan. Tudo ao som dos gemidos de Principle e sua entrega sexual-espiritual à vida noturna e seus amores.
– gambito de rafinha
2. “Immaterial” - SOPHIE
2017
Posso ser o que eu quiser, de qualquer forma, jeito, em qualquer lugar. Pois o controle da nossa narrativa é, enfim, nossa. Existe algo tocante em partir das capas disformes e abstratas dos primeiros singles até as performances enganadoras - como o Boiler Room em 2013, onde SOPHIE se disfarçou de segurança enquanto outra pessoa estava tocando o seu set - para se colocar no centro da imagem, dar a cara a tapa, mostrar para você e pro mundo quem você é de verdade. Dentro de seu único álbum lançado em vida, Oil of Every Pearl's Unsides, “Immaterial” representa o ponto de liberação definitivo, uma ruptura de todas as inseguranças vividas, para entrelaçar em pura euforia cristalina, um contraste dos club bangers e das peças mais atmosféricas trabalhadas dentro do álbum, e uma aproximação a sonoridades mais açucaradas trabalhadas pela PC Music e o bubblegum bass. De certa forma, faz sentido, é um aperto de mãos entre a SOPHIE moldadora de sonoridades e visões idiossincráticas e a sua criança interior, convergindo entre si em uníssono, enfim, livres.
– João Pedro Leopoldino
1. “Fullgás” - Marina Lima
1984
“Como a música é a expressão mais viva da cultura no Brasil, é justamente ela que os caretas querem impor a sua ‘ordem’”, diz Marina Lima e Antonio de Cícero em manifesto colocado na capa do vinil que preludia “Fullgás”. A artista, que sempre foi fora da curva, não decidiu apenas falar sobre viver um amor intenso com alguém, ela quis “fazer um país” como ato de protesto – de tudo mesmo! Afinal, com a safra do MPB e rock que dominava a cena carioca nos anos 80, não demorou muito para que Marina se cansasse e decidisse sair do convencional e partir para os pobres inexplorados teclado e bateria. A letra, que tampouco pode soar a uma geração igualmente careta, continua atual. Pois, ao escutarmos o que havia de bom naquele período, há um choque instantâneo ao perceber que existia uma pessoa fora da caixa, alguém que não sabia dançar no mesmo ritmo que os demais. Talvez, essa seja a sensação mais gostosa de escutar a faixa.
– Lu melo













