Crítica | Acústico Luedji Luna


Selo: Altafonte 
Formato: Álbum
Gênero: Música Brasileira, Neo-soul, R&B

 

 ★★★★☆

 

Entre se reconhecer como um corpo no mundo e parte do apocalipse diário, Luedji Luna apresenta músicas de seus últimos lançamentos numa roupagem diferente. Longe de produções elaboradas, o Acústico Luedji Luna surge para propor ao ouvinte uma nova interpretação dos últimos sucessos da cantora baiana.

São 50 minutos que se destrincham ao longo de 12 faixas. Nelas, Luedji reinterpreta faixas com uma calma reativa, onde na medida em que abdica da complexidade instrumental proporcionada pelos amplificadores, desfruta da tessitura mais suave e presente, amplitude gerada pelo encontro de uma voz potente com a textura acústica dos instrumentos.

As escolhas que fazemos protagonizam “Encruzilhada”, faixa inédita que encabeça o projeto. Através de uma viagem pela vida da artista antes da música se tornar uma certeza, a canção se coloca como uma moldura de uma mente indecisa, que no meio de todos os caminhos, procura em si a direção que deve seguir.

Na presença de sua conterrânea Jadsa, “Ela é o que há” é um esforço para sintetizar o mistério da mulher, fenômeno natural e detalhe cotidiano, que transita nas facetas definidas das muitas belezas que a mulheridade assume. A dupla baiana se completa em vocais uníssonos, induzindo a catarse da resposta feminina.

“Rotação” narra um término, explora uma nova visão da vida surgida a partir dessa mudança, a priori inóspita. Ao final, a promessa é de que o amanhã chegará mais cedo, quanto mais cedo deixarmos o tempo passar.

Em “Gris”, acordes melancólicos ditam o que esperar do tempo: é nublado, e assim é o canto. Na contida faixa, os cabelos indicam a passagem natural dos anos, numa metáfora que fala de forma sóbria. Acolhe vivências no ciclo sereno de entender o lapso da vida, as experiências moldam essa persona maleável. “Detalhe” é uma poesia cantada que complementa Gris, sob os acordes anteriores.

“Poesia Pouca” é um passeio pela identidade que se perde ao estar desavisadamente apaixonado. É na busca por uma razão para o acontecido, que Luedji se encontra com a decepção pela estima da sua contraparte. Os vocais conduzem a melodia de forma terna. Quem ouve é atravessado pela tranquilidade de se reconhecer em oposição ao desdém do outro.

A composição mais simples de “Pavão” permite à lírica alçar um voo surpreendente. É imperativa a posição de questionamento, que foge da introspecção à medida em que a canção se torna mais imponente.

De forma latente “Rota” encontra um espaço de confissão, onde os acordes do violão substituem a elaborada produção de Lucs Romero. “Gamboa” é a descrição tântrica de uma praia, e aqui, assim como na maioria do projeto, o estímulo vocal é protagonista. Por vezes a faixa transmite uma sensação de flerte ao pé do ouvido, de alguém que já te conhece e sabe transitar na sua maresia, sem entrar em debate com as suas marés.

A proposta de reinventar o amor em “Harém”, surge mais como uma sugestão. Já na versão com Liniker, dentro de Um Mar Para Cada Um existe, na agressividade percussiva do neo-jazz, uma imposição. As frases são marcadas, os espaços dos instrumentos são delimitados, assim como o debate proposto nas letras. Se existe um intuito de reinventar o amor, que seja sob os seus próprios termos, abraçando a sugestão como parte de um diálogo direto. A proposta é de um acústico simples, ainda assim, é preciso reiterar a ausência da voz da Liniker.

“Iôiô” é uma grata surpresa, são raros os momentos em que podemos ver o casal talentoso performando juntos de forma tão confortável. Se a ausência da Liniker em “Hárem” incomoda, aqui o rapper Zudizilla é presença ímpar, com linhas indelicadas que atravessam o violão e criam um contraponto que compõe um panorama mais amplo.

Com menor dependência elétrica, Luedji reconta seus sucessos, no repertório íntimo, que agracia o ouvinte com músicas inéditas, mas nada inovador. É a mesma sala bonita, com alguns móveis novos, uma temperatura amena e uma pintura diferente.

Kelvin Cruz

MC intermitente, graduando em Jornalismo pela FACOM, redator no Aquele Tuim para as curadorias de Hip hop, R&B, MPB, Pós-MPB, Música Brasileira, Pop e Experimental.

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