Entrevista | OGermano explica mescla de estilos e referências em Virada de Chave

Em entrevista ao Difonia, OGermano detalha a construção de “Virada de Chave” e explica como transformou suas influências em um álbum conceitual e linear.

A mistura entre rap e samba não é novidade na música brasileira. Marcelo D2 já consolidou seu nome ao experimentar diferentes vertentes do samba ao lado da estética do hip hop. Entre os artistas mais recentes da cena, porém, essa combinação aparece de maneira menos frequente, muitas vezes restrita a samples usados nas produções. Em “Virada de Chave”, OGermano transforma essas influências em conceito central do projeto. Em entrevista ao Difonia, o rapper falou sobre o processo de construção do disco e como buscou desenvolver uma obra coesa e linear.

O álbum começou a ser desenvolvido antes mesmo de “Caça & Recompensa”, trabalho colaborativo com Matchola, e continuou tomando forma após o lançamento do projeto. OGermano explica que o disco nasce de referências muito pessoais e de uma bagagem construída ao longo dos anos. “Acho que é pra gente que cresceu nos anos 2000, vendo muito o Marcelo [D2] fazendo isso, vendo o Black Eyed Peas fazendo os bagulhos com o Sérgio Mendes”, comenta reforçando a intenção de aproximar samba e rap de maneira orgânica, sem soar apenas como um exercício estético.

Os interlúdios presentes ao longo do álbum aparecem de forma sutil, mas cumprem papel importante na narrativa do trabalho. As falas direcionadas ao pai ajudam a criar continuidade entre as músicas e aprofundam a identidade do disco. Segundo o rapper, essa conexão com o samba vem de casa. “Meu pai tem uma história com o samba. Eu cresci sempre escutando samba-enredo, meu pai ouvindo muito samba. E meu irmão sempre foi o moleque do hip hop. Então, foi uma forma de difundir esses dois mundos que eu sempre tive”, diz.

OGermano destaca que o processo criativo aconteceu de maneira natural, impulsionado por referências acumuladas ao longo da vida. Apesar de ter passado um período em Nova Iorque e consumido o hip hop local de forma intensa, ele diferencia essa experiência da relação que possui com o samba. Para o artista, o rap foi algo que conheceu profundamente e que pode “vivenciar”, mas o samba foi algo “vivido”. Ao comentar sobre a importância dessa fusão para além da musicalidade, ele define “Virada de Chave” como uma continuação de “As Crônicas de um Neguin”, aprofundando a figura do Germanin, persona construída a partir da própria história.

Além de rapper, ele também atua como produtor e descreve a criação sonora do disco como um processo “natural”. Durante cerca de um ano, mergulhou na música brasileira em busca de elementos que dialogassem com o projeto. O artista comenta sobre o aprendizado em samplear samba, citando a construção de “Mar”, faixa que utiliza “Sob o Mar”, de Jaime e Nair. Ainda assim, reforça que não ouviu música pensando exclusivamente no álbum. Tudo aconteceu de forma espontânea e muito intuitiva.

As participações especiais também ajudam a fortalecer a identidade do trabalho. Leall aparece na faixa “Virada de Chave”, a que mais se distancia da proposta sambista do disco, mas sem comprometer a coerência sonora. O resultado funciona como um momento inesperado para o ouvinte, sustentado pela sintonia lírica entre os artistas. Já em “Mensageiro de Zambi”, Luiz Barata contribui com um refrão marcante, conduzido pela voz grave que acompanha o beat produzido por OGermano. O rapper conta que a música nasceu logo após o lançamento de “Caça & Recompensa”, período que ele define como uma de suas fases mais criativas.

Segundo o artista, “O Que Você Me Faz” foi a faixa responsável por abrir os caminhos conceituais do álbum. A música conta com a participação de Pedro Mizutani, apontado por OGermano como um dos nomes mais interessantes da nova geração da música popular brasileira. A colaboração surgiu de forma espontânea, já que Mizutani frequentava constantemente o estúdio da OGEF e tinha contato direto com alguns beats produzidos pelo rapper. Além da participação vocal, Pedro também contribuiu com os arranjos de violão, ajudando a consolidar a proposta de unir samba, bossa nova e rap de maneira coerente.

A colaboração de Aori permitiu que o artista revisitasse uma de suas grandes referências da discografia de Marcelo D2. O rapper revela inspiração em “A Arte do Barulho”, utilizando a introdução da faixa como uma espécie de mestre de cerimônias que conduz o conceito do disco. Ele também destaca como as colaborações de Douglas Lemos e Matchola agregaram à construção do trabalho. Algumas participações, no entanto, acabaram ficando de fora por conflitos de agenda, como Sain.

Ao escolher suas três faixas favoritas do álbum, o produtor cita “Meu Coração Não Sente Dor” em primeiro lugar. “O sample foi angelical. Tenho um apego emocional muito forte nela”, afirma. Em seguida aparece “Mar”, enquanto “Legião Urbana” fecha a lista por carregar uma sonoridade mais pesada e diretamente ligada ao rap, sem perder a essência do álbum. O artista também comenta que “Legião Urbana” inicialmente teria participações de Belga e Ana Frango Elétrico, colaboração que acabou não acontecendo também por questões de agenda. Apesar disso, ele afirma que as conexões continuam e não descarta futuras colaborações, seja em uma versão deluxe do disco ou em novos projetos.

Pensando no futuro, OGermano afirma que “Virada de Chave” também foi desenvolvido imaginando sua execução ao vivo. O rapper demonstra interesse em levar o álbum para os palcos acompanhado de banda, reforçando ainda mais a presença do samba na experiência do show. “Tô muito animado pra levar esse disco pro palco. Quero muito fazer ele nesse formato de banda, com essa pegada de samba”, diz.

Em “Virada de Chave”, o rapper se apresenta como um artista interessado em revisitar suas raízes e transformar experiências pessoais em novos caminhos para sua carreira. O disco explora a introspecção de maneira leve, sustentado por uma atmosfera que aproxima o peso do rap da suavidade do samba carioca. A coerência conceitual aparece tanto na sonoridade quanto na escrita, criando uma linha de continuidade que reforça o potencial artístico do rapper dentro da cena carioca. Apostando em diferentes referências e ampliando cada vez mais sua bagagem musical, OGermano entrega um trabalho que evidencia maturidade e identidade própria.


Talita Mutti

Estudante de Jornalismo, 21 anos. Obcecada por música e fotografia desde a adolescência. No Aquele Tuim, faz parte da curadoria de Hip Hop.

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