Crítica | Stadium

Selo: Computer Students
Formato: LP
Gênero: Rock / Prog Rock, Math Rock 

★★★☆☆


Após um longo hiato de duas décadas, o duo francês Chevreuil volta com o lançamento do álbum Stadium. E voltaram de maneira bem impactante. Diretamente influenciados pelas sonoridades da noise music e do prog rock, o guitarrista Tony Chauvin e o baterista Julien Fernandez desmantelam as fronteiras entre música e arte experimental e propõem encarar a criação musical como fonte primária da evocação de sentidos físicos. Em Stadium, a dupla consegue, então, honrar a tradição do noise ao transportar o ouvinte para uma jornada na qual será possível literalmente sentir a textura de vários sons entoados ao longo de 16 faixas, divididas em dois discos, formando, assim, uma espécie de LP duplo.

Por trás de toda a sagacidade de Stadium, está a ideia de que somente um instrumento pode dar vida a múltiplos outros. E é exatamente isso que acontece com a guitarra de Chauvin em todas as composições do álbum: ela é concebida como objeto maleável e mutável, capaz de sofrer diversas transformações, uma vez que está ligada a quatro amplificadores distintos empenhados em alterar seu timbre. Em Aria, terceira faixa da primeira metade do disco, as ondas da guitarra são distorcidas e ela parece soar quase como um órgão eletrônico. Tal mutabilidade sonora confere ao ouvinte a mágica sensação de estar adentrando um cenário onde tempo, espaço e som são metricamente fusionados e nunca são o que realmente parecem ser. Não é, portanto, exagero dizer que a magia de Stadium é justamente a de mostrar que música pode ser alquimia e que os compassos rítmicos do rock tradicional podem ser plenamente desafiados, como prega a mensagem do math rock.

A ideia de trazer uma roupagem alquímica para o som é consistentemente implantada no decorrer de todo o disco. O ouvinte não é limitado a uma interpretação única dos sons que circundam a percussão intensamente liderada por Julien, o que faz do álbum um verdadeiro receptáculo híbrido, no qual o som pode ser comprimido e expandido ao mesmo tempo. Em Quantum, nada é fixo e estruturado e os barulhos contidos nela provocam uma sensação de imprevisibilidade, de um fim sem respostas e de uma dúvida pungente. Mas talvez por ser um projeto bastante ambicioso, certas faixas do disco são mais frágeis na tarefa de estimular algum tipo de catarse. Alguns momentos de Stadium não são tão bons em consolidar uma magia barulhenta eficaz em misturar sentidos e timbres e viram, então, partes um pouco descartáveis no processo de escuta do LP.

No geral, Stadium consegue, de maneiras inventiva e meticulosa, manipular as dimensões do som e estabelecer um noise repleto de ritmos hipnóticos. O projeto definitivamente prova que Tony e Julien sabem mesclar medo, tensão, questionamento e estranheza a partir de uma quadrifonia implacável, formada por uma bateria, uma guitarra e quatro amplificadores obstinados a desenharem sonoridades nada melódicas, mas bem profundas.
Daniela

Graduanda em Jornalismo. Costumo engajar com quase tudo que envolva cultura. No Aquele Tuim, faço parte da curadoria de Rock.

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