
Selo: Warner Music Brasil
Formato: LP
Gênero: Funk
★★★½☆
Existe algo muito interessante acontecendo em PORNOGRAFIA AUDITIVA da Bia Soull porque, diferente da maioria dos discos que tentam vender “ousadia” hoje em dia, ele realmente parece disposto a ir até o fim da própria proposta, graças a sua produção musical. Em uma cena alternativa saturada de artistas que confundem minimalismo emocional com profundidade, a Bia escolhe o caminho oposto: excesso, intensidade, desejo, desconforto e prazer elevados ao máximo possível. E surpreendentemente, funciona.
A primeira impressão do álbum é quase sufocante. Os beats são agressivos, os synthsparecem derreter em tempo real, os vocais entram e saem da mixagem como se fossem parte da própria textura instrumental, e tudo soa absurdamente vivo. É um disco que entende perfeitamente a estética do caos digital contemporâneo sem depender daquela fórmula preguiçosa de “alternativo genérico da internet”. Aqui existe intenção estética.
O mais forte do projeto é como ele usa erotismo sem cair naquela objetificação óbvia e conservadora que normalmente domina trabalhos que tentam abordar sexualidade feminina. A Bia coloca o prazer, os fetiches e a intimidade da mulher no centro da narrativa de uma forma quase confrontadora, mas sem transformar isso num discurso panfletário ou numa tentativa desesperada de parecer “empoderada”. O álbum não pede validação moral do ouvinte; ele simplesmente existe dentro da própria liberdade estética e emocional, e talvez isso seja justamente o que torna tudo tão provocador, começando pelo seu título.
Musicalmente, o álbum também impressiona por conseguir misturar funk, pop, R&B e música experimental sem soar como uma colagem forçada de referências. Existe uma fluidez muito natural na maneira como o disco atravessa gêneros enquanto mantém uma identidade extremamente específica. Mesmo nos momentos mais absurdos — e o álbum tem vários —, você sente controle artístico. A sensação é de estar ouvindo alguém que realmente entende o tipo de experiência sensorial que quer causar.
E claro, o disco é excessivo. Muito, e não só pelo excesso de faixas. Em alguns momentos a intensidade constante acaba deixando certas faixas parecidas demais entre si. Mas sinceramente? Isso acaba funcionando mais como parte da experiência do que como um defeito grave. O álbum parece ter sido construído exatamente para ser uma sobrecarga sensorial, quase como uma instalação sonora sobre desejo, consumo, corpo e hiperestimulação digital. O próprio nome tem muito haver com isso, faz jus ao conceito, em muitas partes, os sons ultraprocessados, quase que soam como vídeos de ASMR, causando muitas vezes orgasmos auditivos.
Liricamente, a Bia também consegue equilibrar muito bem provocação e estética. Tem frases que beiram o ridículo? Sim, mas o álbum entende perfeitamente o valor do exagero performático. Existe uma ironia muito inteligente em como ele brinca com vulgaridade, glamour decadente e artificialidade emocional ao mesmo tempo. Em vez de tentar soar “elegante” o tempo inteiro, o disco abraça o exagero como linguagem artística — e isso dá personalidade de sobra ao projeto.
Talvez o mais admirável em PORNOGRAFIA AUDITIVA seja justamente o fato de ele não tentar ser confortável. Enquanto muito da música atual parece calculado para agradar algoritmo, crítica e público ao mesmo tempo, a Bia Soull faz um álbum que, além de agradar o algoritmo, também provoca reação. Você pode amar, estranhar ou até se cansar da intensidade em certos momentos, mas dificilmente termina a experiência sem sentir que ouviu algo genuinamente artístico.
No fim, é um disco caótico, exagerado, extremamente sensual e ocasionalmente repetitivo, mas também é um projeto muito interessante dessa estética alternativa recente. A Bia transforma excesso em linguagem — e poucas artistas conseguem fazer isso sem desmoronar no próprio conceito.