Selo: YB music
Formato: Álbum
Gênero: Música Brasileira
Formato: Álbum
Gênero: Música Brasileira
★★★★☆
Juçara Marçal se junta à pianista Thais Nicodemo em seu terceiro disco colaborativo. O álbum é um convite à estranheza dos encontros, rupturas e consequências que a vida oferece. São quase 31 minutos em nove faixas, propondo uma derrocada de emoções humanas, um descaminho através da complexidade das interações e pensamentos.
O álbum abre com um flerte com a progressão do samba em “Isso é o que se diz, irmão”, estabelecendo de cara o conceito dicotômico de desolação/esperança que permeia todo o projeto. Em três minutos, um mix de sentimentos é despejado sobre quem ouve. Apesar de um tom inicial menos cintilante, a faixa revela ao longo de sua duração uma esperança que passa por passagens bíblicas, mas convence de fato, pelo astral sensível na tessitura da artista.
O sentimento de esperança volta a aparecer, com contornos mais infantis, com o piano de “Cavaquinho”, que explora um querer inocente. O andamento da canção se inclina para nostalgia, ao passo que se mantém debruçada sobre a tórrida natureza adulta do presente. A faixa pode ser lida com uma metáfora para os desejos infantis que encontram no inconsciente uma forma latente de se manifestar em vontades.
A faixa homônima parece expor, logo de início, a pretensão do projeto: despir as palavras e mostrar quão cruas podem ser as emoções quando já não existem significados claros, apenas aproximações possíveis para as razões que regem os sentimentos.
Acompanhada de uma melodia compassada para alimentar a atmosfera proposta, “Maria” é o epicentro emocional. Ao abraçar a tragédia feminina, a canção se mostra potente, com cada vez mais detalhes menores que compõem, como livros sob a cômoda, uma cena trágica que provoca uma reflexão quanto ao lugar ocupado por essas mulheres em suas respectivas gerações.
A viagem deturpada de “Eu lacrei”, proposta por moduladores de voz que são deliberadamente dissonantes com o intuito de tensionar esse ambiente, passa por uma camada de sentimentos convolutos. Essa faixa marca uma virada onde Nicodemo e seu piano começam a ditar com maior fervor o tom do álbum. “Merecedores” levanta os ânimos com um carnaval de estímulos, sempre emparelhados com a interpretação esperada pela cantora.
As composições são assinadas por variados colaboradores do entorno de Marçal e permitem equilíbrio entre as emoções exploradas nos acordes e na lírica. A interpretação da cantora fluminense é singular, marcando cada uma das nuances expostas no álbum. Os silêncios são bem delimitados e ilustrativos, sabendo ceder o foco para serem preenchidos por um piano frequentemente diegético, onde é muito mais fácil notar sua ausência do que perceber a maneira orgânica como ele surge nas composições.
