
Selo: Black Service/Amor in Sound
Formato: Álbum
Gênero: Música Brasileira, Samba
★★★★★
O álbum é primoroso e deixa clara, ao longo de suas 11 faixas, a proposta estética do disco que conta com momentos orquestrais grandiosos, capazes de adoçar até os ouvidos mais azedos. Segundo Jorge Mário da Silva, o projeto demorou justamente porque buscava chegar o mais próximo possível da música brasileira, sem abandonar as características que assinam a ‘sua’ música.
Neste álbum Jorge encontra, mais uma vez, o produtor Mario Caldato Jr., colaborador de longa data, que esteve presente em Samba Esporte Fino (2001) e também assina a produção. As participações ficam por conta de Marisa Monte, Maria Rita, Beck e Zap Mama, que entregam na medida correta, contraste e complementaridade para a voz grave do antigo vocalista do Farofa Carioca. O repertório escolhido para o álbum evoca um Brasil dos anos 1960/70, com grandes influências do samba-rock de Jorge Ben e contemporâneos.
“Crença” abre o álbum, aqui uma balada tranquila que bebe de percussões caribenhas, ainda exalando a elegância da versão de 1967 do Bituca. Numa tentativa bem sucedida de elevar o samba à última potência de glamour, surge “Luz na escuridão”. É nela que a grandeza orquestral do álbum começa, ainda que timidamente, a dar as caras.
É uma ousadia incluir duas releituras entre as três primeiras faixas do disco, mas é sob essa proposição, de ser ousado, que Jorge interpreta “Caboclo”. Dentro dos arranjos geniais do maestro Verocai, com uma nova dimensão, a composição alcança uma grandeza sensível proposta por Miguel Atwood-Ferguson. Cada instrumento é proeminente e mantém o ouvinte imerso. Apesar disso, há um certo exibicionismo, seja pelo uso de recursos tecnológicos disponíveis, o excesso de produção ou pela abordagem particular que o cantor carioca confere em cada interpretação.
Na contramão, “Flor da laranjeira” aposta na simplicidade acústica. Uma composição ímpar que te põe no colo, te acalenta. É uma proposta contida que, mesmo após os incrementos de um piano e de leve percussão, que se sustenta na condução terna da voz de Seu Jorge.
Apostando nesse minimalismo, surge “Folia do Amor”. O destaque dado à cuíca reforça uma característica inerente ao samba de cadência mais tradicional. A faixa adiciona essa cor para a rica aquarela que Other Side se propõe a ser.
Em inglês, “Far From the Sea” explora uma bossa contida que exalta em suas líricas as saudades de um homem. A calma surge como um sinal da proposição à introspecção que a música oferece.
“Quando chego” tem o peso Marisa Monte para mudar as medidas emocionais. Numa canção que cresce na sua própria natureza. “River Man” volta ao inglês para, na companhia do Beck, explorar um som mais introspectivo e melancólico, numa pegada Johnny Cash.
No fim, “The Other Side” justifica a espera, cumpre com o que se espera de um dos multiartistas mais ilustres da contemporaneidade brasileira. Só uma coisa separa um disco desse do status de clássico: o passar do tempo.